Jó 6
A1911C · Almeida 1911 — Ortografia atualizada (Edição Concordância), 1911
Então Jó respondeu, e disse: Oh se a minha magoa retamente se pesasse, e a minha miséria juntamente se alçasse numa balança! Porque na verdade mais pesada seria, do que a areia dos mares: por isso é que as minhas palavras se me afogam. Porque as frechas do Todo-poderoso estão em mim, cujo ardente veneno me chupa o espírito: os terrores de Deus se armam contra mim. Porventura zurrará o jumento montes junto à relva? ou berrará o boi junto ao seu pasto? Ou comer-se-há sem sal o que é insipido? ou haverá gosto na clara do ovo? A minha alma recusa tocá-lo, pois é como a minha comida fastienta. Quem dera que se cumprisse o meu desejo, e que Deus me desse o que espero! E que Deus quisesse quebrantar-me, e soltasse a sua mão, e me acabasse! Isto ainda seria a minha consolação, e me refrigeraria no meu tormento, não me perdoando ele; porque não ocultei as palavras do Santo. Qual é a minha força, para que eu espere? ou qual é o meu fim, para que prolongue a minha vida? É porventura a minha força a força de pedra? Ou é de cobre a minha carne? Ou não está em mim a minha ajuda? ou desamparou-me a verdadeira sabedoria? Ao que está aflito devia o amigo mostrar compaixão, ainda ao que deixasse o temor do Todo-poderoso. Meus irmãos aleivosamente me falaram, como um ribeiro, como a torrente dos ribeiros que passam. Que estão encobertos com a geada, e neles se esconde a neve. No tempo em que se derretem com o calor se desfazem, e em se aquentando, desaparecem do seu logar. Desviam-se as veredas dos seus caminhos: sobem ao vácuo, e perecem. Os caminhantes de Tema os veem; os passageiros de Sabá olham para eles. Foram envergonhados, por terem confiado e, chegando ali, se confundem. Agora sois semelhantes a eles: vistes o terror, e temestes. Disse-vos eu: Dai-me ou oferecei-me da vossa fazenda presentes? Ou livrai-me das mãos do opressor? ou redemi-me das mãos dos tiranos? Ensinai-me, e eu me calarei: e dai-me a entender em que errei. Oh! quão fortes são as palavras da boa razão! mas que é o que argue a vossa arguição? Porventura buscareis palavras para me repreenderdes, visto que as razões do desesperado estão como vento? Mas antes lançais sortes sobre o órfão; e cavais uma cova para o vosso amigo. Agora pois, se sois servidos, virai-vos para mim; e vede se minto em vossa presença. Voltai pois, não haja iniquidade: tornai-vos, digo, que ainda a minha justiça aparecerá nisso. Há porventura iniquidade na minha língua? Ou não poderia o meu paladar dar a entender as minhas misérias?
Almeida 1911 — Ortografia atualizada. Edição © 2026 Concordância. Atualização ortográfica feita pela Concordância, com auxílio de IA e revisão. Texto-base: Almeida, Edição Revista e Corrigida (1900/1911), domínio público; transcrição do Projeto Gutenberg (#62383).