Jó 38
A1911C · Almeida 1911 — Ortografia atualizada (Edição Concordância), 1911
Depois disto o Senhor respondeu a Jó dum redemoinho, e disse: Quem é este que escurece o conselho com palavras sem conhecimento? Agora cinge os teus lombos, como homem; e perguntar-te-hei, e tu me ensina. Onde estavas tu, quando eu fundava a terra? faze-mo saber, se tens inteligência. Quem lhe pôs as medidas? se tu o sabes; ou quem estendeu sobre ela o cordel? Sobre que estão fundadas as suas bases? ou quem assentou a sua pedra da esquina, Quando as estrelas da alva juntas alegremente cantavam, e todos os filhos de Deus jubilavam? Ou quem encerrou o mar com portas, quando trasbordou e saiu da madre; Quando eu pus as nuvens por sua vestidura, e a escuridão por envolvedouro? Quando passei sobre ele o meu decreto, e lhe pus portas e ferrolhos; E disse: Até aqui virás, e não mais adiante, e aqui se quebrarão as tuas ondas empoladas? Ou desde os teus dias deste ordem à madrugada? ou mostraste à alva o seu logar; Para que pegasse dos fins da terra, e os ímpios fossem sacudidos dela; E se transformasse como o barro, sob o selo, e se pusessem como vestidos; E dos ímpios se desvie a sua luz, e o braço altivo se quebrante; Ou entraste tu até às origens do mar? ou passeaste no mais profundo do abismo? Ou descobriram-se-te as portas da morte? ou viste as portas da sombra da morte? Ou com o teu entendimento chegaste às larguras da terra? faze-mo saber, se sabes tudo isto. Onde está o caminho para onde mora a luz? e, quanto às trevas, onde está o seu logar; Para que as tragas aos seus limites, e para que saibas as veredas da sua casa? Acaso tu o sabes, porque já então eras nascido, e por ser grande o número dos teus dias? Ou entraste tu até aos tesouros da neve? e viste os tesouros da saraiva, Que eu retenho até do tempo da angústia, até ao dia da peleja e da guerra? Onde está o caminho em que se reparte a luz, e se espalha o vento oriental sobre a terra? Quem abriu para a inundação um leito, e um caminho para os relâmpagos dos trovões; Para chover sobre a terra, onde não há ninguém, e no deserto, em que não há gente; Para fartar a terra deserta e assolada, e para fazer crescer os renovos da erva? A chuva porventura tem pai? ou quem gera as gotas do orvalho, De cujo ventre procede o gelo? e quem gera a geada do céu? Como debaixo de pedra as águas se escondem: e a superfície do abismo se coalha. Ou poderás tu ajuntar as delícias das sete estrelas, ou soltar os atilhos do Orion? Ou produzir as constelações a seu tempo? e guiar a Ursa com seus filhos? Sabes tu as ordenanças dos céus? ou podes dispor do domínio deles sobre a terra? Ou podes levantar a tua voz até às nuvens, para que a abundância das águas te cubra? Ou enviarás aos raios para que saiam, e te digam: Eis-nos aqui? Quem pôs a sabedoria nas entranhas? ou quem deu ao sentido o entendimento? Quem numerará as nuvens pela sabedoria? ou os odres dos céus, quem os abaixará, Quando se funde o pó numa massa, e se apegam os torrões uns aos outros? Porventura caçarás tu preza para a leoa? ou fartaras a fome dos filhos dos leões, Quando se agacham nos covis, e estão à espreita nas covas? Quem prepara aos corvos o seu alimento, quando os seus pintainhos gritam a Deus e andam vagueando, por não terem de comer?
Almeida 1911 — Ortografia atualizada. Edição © 2026 Concordância. Atualização ortográfica feita pela Concordância, com auxílio de IA e revisão. Texto-base: Almeida, Edição Revista e Corrigida (1900/1911), domínio público; transcrição do Projeto Gutenberg (#62383).