Lamentations 3
A1911C · Almeida 1911 — Ortografia atualizada (Edição Concordância), 1911, portugais
Eu sou aquele homem que viu a aflição pela vara do seu furor. A mim me guiou e levou às trevas e não à luz. Deveras se tornou contra mim e virou a sua mão todo o dia. Fez envelhecer a minha carne e a minha pele, quebrantou os meus ossos. Edificou contra mim, e me cercou de fel e trabalho. Assentou-me em logares tenebrosos, como os que estavam mortos há muito. Cercou-me de sebe, e não posso sair: agravou os meus grilhões. Ainda quando clamo e grito, ele exclue a minha oração. Cercou de sebe os meus caminhos com pedras lavradas, divertiu as minhas veredas. Fez-se-me como urso de emboscada, um leão em esconderijos. Desviou os meus caminhos, e fez-me em pedaços; deixou-me assolado. Armou o seu arco, e me pôs como alvo à frecha. Faz entrar nos meus rins as frechas da sua aljava. Fui feito um objeto de escárnio a todo o meu povo, de canção sua todo o dia. Fartou-me de amarguras, embriagou-me de absinto. Quebrou com pedrinhas de areia os meus dentes; abaixou-me na cinza. E afastaste da paz a minha alma; esqueci-me do bem. Então disse eu: Já pereceu a minha força, como também a minha esperança no Senhor. Lembra-te da minha aflição e do meu pranto, do absinto e do fel. Minha alma certamente disto se lembra, e se abate em mim. Disto me recordarei no meu coração; por isso esperarei. As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos; porque as suas misericórdias não têm fim. Novas são cada manhã; grande é a tua fidelidade. A minha porção é o Senhor, diz a minha alma; portanto esperarei nele. Bom é o Senhor para os que se ateiem a ele, para a alma que o busca. Bom é esperar, e aguardar em silêncio a salvação do Senhor. Bom é para o homem levar o jugo na sua mocidade. Assentar-se-há solitário, e ficará em silêncio; porquanto Deus o pôs sobre ele. Ponha a sua boca no pó, dizendo: Porventura haverá esperança. Dê a sua face ao que o fere; farte-se de afronta. Porque o Senhor não rejeitará para sempre. Antes, se entristeceu a alguém, compadecer-se-há dele, segundo a grandeza das suas misericórdias. Porque não aflige nem entristece aos filhos dos homens do seu coração. Para atropelar debaixo dos seus pés a todos os presos da terra. Para perverter o direito do homem perante a face do Altíssimo. Para subverter ao homem no seu pleito; porventura não o veria o Senhor? Quem é aquele que diz, e assim acontece, quando o Senhor o não mande? Porventura da boca do Altíssimo não sai o mal e o bem? De que se queixa logo o homem vivente? queixe-se cada um dos seus pecados. Esquadrinhemos os nossos caminhos, e investiguemo-los, e voltemos para o Senhor. Levantemos os nossos corações com as mãos a Deus nos céus, dizendo: Nós prevaricamos, e fomos rebeldes; por isso tu não perdoaste. Cobriste-nos da tua ira, e nos perseguiste; mataste, não perdoaste. Cobriste-te de nuvens, para que não passe a nossa oração. Por cisco e rejeitamento nos puseste no meio dos povos. Todos os nossos inimigos abriram contra nós a sua boca. Temor e cova vieram sobre nós, assolação e quebrantamento. Correntes de águas derramou o meu olho pelo quebrantamento da filha do meu povo. O meu olho manou, e não cessa, porquanto não há descanso, Até que atente e veja o Senhor desde os céus. O meu olho move a minha alma, por causa de todas as filhas da minha cidade. Como ave me caçaram os que são meus inimigos sem causa. Arrancaram a minha vida na masmorra, e lançaram pedras sobre mim. Derramaram-se as águas sobre a minha cabeça; eu disse: Estou cortado. Invoquei o teu nome, Senhor, desde a mais profunda cova. Ouviste a minha voz; não escondas o teu ouvido ao meu suspiro, ao meu clamor. Tu te chegaste no dia em que te invoquei; disseste: Não temas. Pleiteaste, Senhor, os pleitos da minha alma, remiste a minha vida. Viste, Senhor, a injustiça que me fizeram; julga a minha causa. Viste toda a sua vingança, todos os seus pensamentos contra mim. Ouviste o seu opróbrio, Senhor, todos os seus pensamentos contra mim, Os ditos dos que se levantam contra mim e as suas imaginações contra mim todo o dia. Observa-os a eles ao assentarem-se e ao levantarem-se; eu sou a sua canção. Rende-lhes recompensa, Senhor, conforme a obra das suas mãos. Dá-lhes ânsia de coração, maldição tua sobre eles. Na tua ira persegue-os, e desfá-los de debaixo dos céus do Senhor.
Almeida 1911 — Updated spelling. Edition © 2026 Concordância. Spelling update made by Concordância, with AI assistance and review. Base text: Almeida, Revista e Corrigida edition (1900/1911), public domain; transcription from Project Gutenberg (#62383).